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para lembrar quem sou

por kika moog

kika

29 October

COMO LIDAR COM A CHATURA AGUDA?

E quando a pessoa é simplesmente chata?
Tem bom coração? Tem; caráter? Tem. Boas intenções? Ok.
Mas qualquer conversa é um exercício como carregar pedras, cansativíssimo, porque a fala do chato é aos borbotões, sem um milésimo de segundo para o interlocutor; ouvir? Esqueça, não rola.
Mudar de ideia? Fora de cogitação. E inda dizem que eu que sou teimosa...
Calma, ponderação, bom-senso? Nada.
 
Chega uma hora que a gente perde a paciência. E aí, que fazer? Chatos têm sentimentos, sabe-se. Pouca sensibilidade para o estorvo que causam aos sentimentos alheios, mas vá lá. E, então, que fazer com um chato??????? Que fazer?






 
27 October

desgovernanças


Preguiça de viver a vida acostumada.
Pequenos mal-entendidos me exasperam.
A clarividente compreensão me deprime.


Eu fico querendo horizontes. Fugas?
 
As coisas, no entanto, são fugidias e ninguém entende.
Ninguém me vê hoje.
Estou coberta de sombra e indefinição.
 
 
 

 

 





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27 September

MEU RUMO




Ai que bom saber, a essa altura da vida, o que eu sempre soube: vim pra colecionar afetos.
As tardes no colégio? Minhas amigas! Uma ao menos pra vida toda e além.
As peripécias na facul? Quem lembra do que aprendeu rs? Certamente não eu... lembro das figuras variadas daquela fauna, dos amigos queridos que protagonizaram minha vida comigo tanto tempo...
Trabalho? Nunca tive vocações... ambições menos ainda... mas adorei conhecer quem conheci na FGV, na Bloch, no tribunal... e me sinto privilegiada por trabalhar com gente de quem posso gostar. É o que me importa, na verdade. A quantidade de risadas. A cooperação. O interesse pelo outro. Não sou suficientemente idiota pra acreditar que meu trabalho influa nos destinos do mundo... mas que influi, através das pessoas, positivamente no meu, isso influi!
Viagens? Melhor vivê-las e lembrá-las com quem me acompanhou!
As marcas que tenho têm nomes de pessoas, não de grifes, não de números, não...
Nada contra quem seja diferente...
Mas que hoje fiquei bem contente lendo a matéria na revista, fiquei. Afinal, não sou tão boba quanto pensava, com meus sentimentalismos e a capacidade sempre grande e disponível para me afetar... e afeiçoar.
Dizia assim:

DURANTE 70 ANOS, O MAIS FASCINANTE ESTUDO CIENTÍFICO JÁ FEITO ACOMPANHOU A VIDA DE 260 HOMENS. E COMPROVOU: NEM DINHEIRO NEM SAÚDE GARANTEM A FELICIDADE. O SEGREDO DA SUA ALEGRIA ESTÁ NOS SEUS AMIGOS.
 
 
Aproveito então pra declarar, apaixonadamente: amigos,
muito obrigada por essa alegria.
 
ps. Saudades.



 






28 August

HERANÇAS...

De minha mãe, o mar.
De meu pai, os livros.
Nem todo mar, nem todo livro... mas seguramente mar e livros são muito além de mero prazer na minha vida. Passagens mágicas pra outra dimensão de mim, inalcançável por sofrimento, falha ou solidão. Drogas poderosas. Salvação sem religião.
 
A vida vai me deixando os amigos: que me trazem livros. Que me apontam mares.
 
Uma vida sem livros e mares seria caixa fechada. Eu dentro, feito passarinho capturado, uns buraquinhos pra respirar e umas lascas de pão...
 
(Fugir é tão bom quanto qualquer outra coisa. E 'as vezes muito melhor que qualquer outra coisa.)
 




 


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27 August

morre-se

A velha fez como todos os dias: levantou-se, olhou o tempo, deu de comer aos cachorros, vestiu-se rapidamente, passou pela portinhola de madeira carcomida e pisou nareia. Sentiu o chão fácil sob os pés. Ainda andava bem. Caminhou um bocado, avistando gaivotas, pescadores carregando redes, os meninos do turismo começando a chegar pra armar a praia pros gringos. O catamarã inda nem tinha partido pro primeiro passeio. Nem a lua cheia inda se recolhera, embora o sol já brilhasse suave e inclinado. O cheiro de maresia, sargaço, carvão e peixe lhe encheu as narinas. O olfato inda estava ileso mesmo depois de noventa e alguns anos.
Lembrou outras praias, outros mares, outros tempos, outra vida. Ouviu um maracatu ao longe, num radinho qualquer. Botou os pés nágua e o prazer da temperatura lhe fez o agrado de sempre. Delícia. Andou adentro, até submergir. Voltou à tona, jogou pingos pra cima, só pra ver brilhar, brincou no mar como quando sempre foi criança: a vida toda. Após bom pedaço, saiu feliz e deitou-se nareia ouvindo o coração velho e fraco fazer seu baticum. Foi sentindo sono, ouvindo ondas, recordando canções, um leve apagar, uma modorra tão gostosa, uma brisa tão fresca. Dormiu. Pra não acordar mais. Quando encontraram o corpo ela parecia sereníssima e muito, muito velha. Quem estaria vivo pra dizer: foi a melhor morte que ela poderia ter?
Meu filho? Algum amigo inda mais velho? Uma neta forte e jovem de olhos míopes como os meus?
Essa é a morte que eu sonho. E se os deuses da neurolinguística permitirem, assim há de ser. Vou me programando...
Porque morrer, morre-se. Morre-se muito. Morre-se sempre. Até em vida se morre!
(Mas as mortes que se puder escolher, escolham-se.)
13 August

da utilidade dos dons (e de existirmos... a que será mesmo que se destina???)





A menina ficou sem graça, meio humilhada mesmo, quando na mesa de almoço, em casa de uma das colegas de escola, respondeu: ah não, eu canto em casa mesmo, sozinha E provocou a gargalhada geral. Antes dela, as colegas, uma a uma, tinham desfilado seus dons e interesses: eu gosto de línguas, estudo inglês e vou me formar no francês; eu quero atuar, estou na escola de teatro; eu vou fazer prova pro bálé não sei das quantas... e por aí foi. Na sua vez, disse apenas: ah, eu gosto de cantar. - E vc está em algum coral, faz parte de alguma banda, está estudando canto? Perguntaram-lhe; pergunta  esta que rendeu a resposta causadora das risadas. Eu tinha uns poucos anos mais que ela, e me solidarizei totalmente: por que era risível que um dom fosse apenas um prazer e não um projeto profissional, acadêmico ou algo que o valha? Por que seria obrigatório institucionalizar um gosto?
 
De outra feita, um amigo a quem revelei meu pasmo e admiração por entender e fazer tantas coisas diferentes, me confidenciou: ah, não se engane: eu preciso ser assim, porque eu sempre penso que se não souber fazer muitas coisas ninguém vai gostar de mim. Me partiu o coração.
 
Mas admirada mesmo fiquei com outro conhecido, numa viagem que fizemos em grupo. Sentado na rede, monopolizava as conversas, as risadas, os interesses, enquanto um outro se desdobrava numa azáfama sem fim. Uma das moças lhe perguntou: você não fica envergonhado de estar aí na rede, enquanto fulano faz isso, isso e aquiloutro? Você não acha que deveria tentar fazer algo também? Ele sorriu e respondeu, sem ironia nem descaso: eu não preciso, eu sou agradável. Era o oposto do amigo que citei acima. Me identifiquei demais, não porque me supunha "agradável" como ele, segura como ele, longe disso, mas porque algo em mim gritava que eu - e todo mundo - devia valer por mais que feitos ou desfeitos...
Eu tinha dezessete anos.
 
Acaso é menos feliz cantar sozinha no quarto, ou com amigos no bar, ou em uníssono num show, que num palco, ganhando pra isso?
É menos feliz cuidar de alguém que se ama quando adoentado, que ser um cirurgião renomado?
É menos feliz inventar o desenho da própria casa que assinar projetos de catedrais?
É menos feliz tricotar uma blusa pra um amigo que lançar uma coleção em Paris?
 
Talvez. Porque no mundo da produção, só existe o que é útil, o que traz resultados... publicáveis, reconhecíveis, pra não dizer rentáveis. Você pode até ser famoso e não ter dom algum, mas ter dons que não te façam reconhecido em algum grau não vale nada. Não admira que a autoestima não seja o maior patrimônio das pessoas hoje. Que a competição seja cruel. Que a felicidade não chegue nunca pra muita gente.
 
O prazer da coisa em si, onde foi parar?
E fruir a vida, sentir, amar, gozar, entender, desentender, se espantar, vibrar, sorver, expressar, conhecer, contactar... não é dom suficiente? Não faz uma vida valer a pena?
É mesmo necessário servir para alguma coisa, como as cadeiras e os pneus?
É preciso ter nascido PARA alguma coisa? Ou o nascimento é resposta a todas as objeções, como dizia Whitman?
 
 
 
 
 
 





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24 July

chororô


Toda mulher chora.
Homem chorando é sinal de sensibilidade e coragem (é preciso coragem pra macho chorar, inda hoje).
Mulher é sinal de... bem, elas são assim mesmo, o que você poderia esperar duma mulher?
Sim, essa aí a seu lado no metrô está chorando por trás dos óculos escuros, silenciosamente.
Aquela outra chorou ontem, encolhida  na cama feito um feto.
Sua colega de trabalho correu pro banheiro... não, não foi piriri... foi pra chorar quieta, depois lavar o rosto com água fria e voltar como se nada tivesse acontecido.
E sua mulher pode cair no choro hoje durante o jantar...
Por que? Por que? Se perguntava outro dia um marido zeloso, incapaz de compreender choros desmotivados. Choro de homem tem motivo: a mãe morreu, a bolsa despencou, o time perdeu o campeonato. Motivos mais que razoáveis.
Mulher chora à toa mesmo.
Nossa biologia montanha-russa providencia os rompantes. Inexplicáveis para outrem e para nós.
É como se todas as dores presentes-passadas-futuras-pressentidas fossem se acumulando debaixo da pele até minar um dia olhos afora,
descongestionando os trânsitos da alma engarrafada.
Não há o que entender, só aceitar.
E enxugar.  
 
 

 




21 July

espelho espelho meu

Eu sou boba que dói. Acho que todo mundo é como eu. Boba e pretensiosa. Boba e autorreferente beirando a falta de educação.
Boba porque enterro meus mortos e levo flores no túmulo e depois saio cantando.
Boba porque os esqueletos não estão em armários, mas podem bem servir de cabide pros meus chapéus.
Boba porque, sim, estupidamente acredito numa confraternização quase que universal. E abraço sem temores.
Boba porque eu esqueço, eu perdôo, depois de muito tempo, de muitas eras glaciais, sim,  mas depois que o verão chega é chega! e pronto, tudo claro e limpo.
Boba porque quero sempre honrar minha lua leonina e isso não é razoável, e é delírio de grandeza, e é delírio romântico, e é delírio paranóide, quem sabe...
mas é uma necessidade que confesso.
Boba porque quero uma ciranda grande pra brincar.
Boba porque pra mim as coisas passam, e, assim, não precisam passar nunca.
Boba porque acredito.
 
Sobretudo nas estórias que invento pra me ninar durante as insônias existenciais.
 
 
 
 
 
19 July

clave de só

Existe uma solidão inerente à minha humanidade que me dana e me salva.
Me dana porque intacta, intocável, me separa irremediavelmente de tudo que não sou eu.
E isso às vezes me dói como saber que vamos morrer.
Me salva porque intacta, intocável, me separa irremediavelmente de tudo que não sou eu.
E isso às vezes me liberta, como ter nascido.
 
O sabê-la em mim como algo não que carrego, mas que me define, é talvez a fonte de toda a minha perplexidade neste mundo.
 
Minhalma caipira se encanta com o novo a todo momento, mas só se aconchega naquilo que pode tornar velhíssimo.
No que é capaz de engolir sem magoar.
Vai morrer achando que o mundo é grande, mas que o quintal de si tem grandeza bastante pra conforto e alegria.
Iludida ou não.
(A despeito de saber rezar e até entoar os mantras, os fios que tece pros laços com o invisível se colhem no olhar, no olhar, no olhar...)
 
 
 
12 July

canção

Toda vez que ouço a belle de jour de Alceu Valença  a canção me parece tão triste, tão longe, tão perdida no tempo, como concha do mar trazida de férias muito antigas, largada sobre a estante...

Recuerdos.

Por que razão sinto um cordão umbilical entre mim e o Nordeste, o Pernambuco, o cheiro das ruas, das noites,  do mar de lá? Por que razão me puxa como se eu tivesse nascido lá algum dia, nalgum tempo? Como se sempre tivesse querido voltar?

Cordão que já sentia quando tudo que eu tinha era disposição pra carregar minha bagagem amarrotada nas costas, a fome controlada pra dar na quantidade de grana, os olhos  míopes bem servidos de lentes, o caderno, a caneta, os cabelos longos e uma memória calidoscópica?

Eu ouço como se tivesse vivido domingos sem fim, uma infância inteira naquelas bandas... com saudade do que nunca tive.

Saudade de algo que me faz voltar e voltar e voltar... e sentir a proximidade, como num jogo de quente -frio... e a cada volta ficando quente... ficando quente... o coração ardente... mas sem nunca alcançar o escondido...

 

 

9 July

UM DIA



A gente pára para olhar árvores.
Entra em museus pra rir solto e esperar chuva passar.
Divide pratos, divide fomes, divide saciedades.
Senta em chão de livraria para experimentar livros.
Morre de vontade de comprar portas velhas.
Soma ao conhecimento antigo os conhecimentos inexplicáveis e os de todo novidades.
Toma café em banco de praça sem pressa e sem vagar.
Se reúne como se não tivesse havido lapsos.
Se ama como se não houvesse dois corpos.




CAMINHO CERTO - (com certo perigo fatal)

Na estrada que leva ao país das mulheres invisíveis eu caminho com coragem e medo. A beleza ainda é o passaporte das mulheres neste mundo, e não posso deixar de pensar onde, uma vez vencido, estarei proibida de entrar.
A coragem vem do meu pedregoso orgulho, teimosia de não deixar que o mundo masculino - injusto com meu gênero - determine o quanto valho. O medo vem de terminar em fomes, roendo o orgulho seco e frio, 'a falta de qualquer outra coisa que me alimente.
Não sei que nota soa nos meus sonhos entre duas e cinco da madrugada, que me faz despertar como se chamada a acompanhar funerais.
Acendo as luzes, puxo os livros: mas não, não quero ler homens, não podem me espelhar. Me refugio em Adélia Prado. A questão que fecha o poema cala mais fundo que "ser ou não ser": "como abrirei a janela, se não for louca? Como a fecharei, se não for santa?"
                     Como?

Como?

Alguém me responda - ninguém pode fazê-lo, eu sei - e eu me resignarei 'as sinas.






flores

Faço uma faxina: tiro as pétalas velhas das rosas que vão deixando o pescoço pender para o lado, como gente sonolenta no ônibus.
Me sinto mais ou menos assim: em processo de emurchecimento. (Cruzes, que palavra horrível, não bastasse o siginificado...)
Quem dera ser sempreviva, gérbera, orquídea que fosse...
Mas não, me sinto rosa: perecível, desprendendo as pétalas, vergando sob o próprio peso, até não restar veludo algum na pele, turgidez alguma no corpo.
Restam os espinhos, impassíveis, mas que diabos faço com eles? Quando se pensa em metamorfose, vem logo a imagem da larva virando uma linda borboleta e voando, voando... chego a rir agora: há metamorfoses de caminhos contrários também, agora eu sei, onde nada progride ou melhora, onde a gente não sabe o que fazer de si sem as ferramentas que nos são tiradas...
Posso aprender a operar a máquina da vida usando somente as mãos? Não sei. Posso continuar tecendo feminilidade usando somente a arqueologia do corpo? Não sei. Posso esculpir uma persona que não me diminua deste tamanho que levei tanto tempo pra alcançar? Não sei.
Olha, ser mulher é foda, é carma. Mas quem mandou gostar do que é difícil?






11 June

caminhada

No dia em que posso dormir um pouco mais, M liga cedíssimo pra perguntar se dou conta de algum vazamento de água em casa.
Acordada, aproveito pra tomar o ribondranato -será isso mesmo?- o novo remédio pros ossos, que me obriga a ficar sentada dura e tesa durante uma hora. Coisas da idade são pequeníssimas rotinas que vão se acrescentando, e o medo é soterrar um dia a espontaneidade e a agilidade da vida debaixo delas.
Vou caminhar na praia. Sob trilha sonora.
É muito muito dificil não quebrar o quadril, não erguer os braços, não marcar os tempos, não dançar. Há poucas coisas melhores que dançar pra se fazer na vida.
Algumas músicas se diluem na chuva fina que vai abrandando o dia, outras me dão ganas de pulos e rodopios, há as que quase me fazem dar as mãos aos passantes...
A chuva aperta, muitos desistem, eu gosto mais, gosto até do negro mais negro do asfalto, com as marcações brancas que se perdem adiante, como numa estrada...
Encharcada, sentindo o bom de respirar, sem deixar de perceber o novo olhar sobre coisas antigas corriqueiras só porque ele esteve aqui comigo, sem deixar de sorrir ao captar o cheiro de maconha que me traz à superfície as outras praias que me recortam, sem deixar de lembrar que um dia a pouca idade do meu filho serviu de pretexto pra  minhas carreiras de rompante na praia, feito bicho evadido de gaiola. Prazeres do corpo são mais que se imagina. E todos se misturam à alma, a suas levitações ou a suas misérias. 
Depois da chuva, o mar se deita como um cão velho, prateia, sofre invasão de atobás bailarinos.
O dia definitivamente pode ficar melhor porque você sai sem guarda-chuva e... chove! Segredo aprendido: não só o sofrimento é inevitável, felicidade também é.
Continuo minha caminhada no chão e minha dança na cabeça imprimindo um ritmo alegre aos passos.
Não à toa, um amigo me escreveu esta semana pra dizer que lembrou atrasado do aniversário e que minha lembrança é sempre afável, risonha, dançante, colorida.
Assim é, se lhe parece. Assim é, se assim sinto.
Assim seja, agora e sempre.
 
 
20 May

espaços e tempos

Ameaça chover, mas vou assim mesmo.
Sob escuro, a praia queda também silenciosa, descondenada de vozes humanas: ninguém conversa, ninguém apregoa nada.
Os poucos presentes perdem o olhar no vaivém das ondas, que resfolegam como cavalos cansados.
A algaravia dos atobás, o apito grave do navio ao longe. Tão ao longe, desfocado pela bruma, quase navio fantasma. Tão bonito um navio fazendo a curva...
Meditações.
O mar, mesmo domesticado comprimido pela cidade em volta, é uma lembrança de imensidão cercada de limites.
As prisões, variadas, num colorido quase alegre, contrastam com a seriedade profunda da liberdade.
Amo o mar como um útero imenso sem paredes.
Sem vontade de nascer ou morrer.
Tudo que amo dorme um sono leve em mim.
Tudo que não conheço tem em mim pouso certo, como um quarto de hotel arrumado para esperar hóspedes.
Tudo que estou fadada a ignorar para sempre me deixa em paz, abraçada pela delicadeza exata do mundo.
 
14 May

palavras

O jeito mais certo de dizer eu te amo
talvez não seja assim, eu te amo.
Talvez seja deixar gemer a dor que mina em mim quando dói nele,
talvez seja deixar cantar a alegria que jorra de mim quando vem dele.
Talvez seja a ternura se bordando em torno das imperfeições, botando beleza nelas,
talvez seja a clarividência de só saber, sem engano e sem precisar prova ou fato.
Talvez seja estar tomada por ele, sem no entanto sensação de limites,
talvez seja descobrir que ser livre sem ele não tem graça nenhuma.
(Mas mesmo assim não custa traduzir: eu te amo.)
28 March

MES DE ABRIL

 
ABRE ABRIL, QUE EU QUERO PASSAR!
ABRE O TEMPO - DEIXA QUE EU FECHO O MOMENTO-
ABRE CÉUS E TERRAS, NOITES E DIAS ABERTOS,
ABERTOS O LONGE E O PERTO...
(E EU TODA ESPALHADA EM MIM
ATÉ ELE VIR ME ABRIR -
ME REUNIR ENFIM.)
21 March

alma carioca

Ontem depois de meia noite eu estava numa conversa filosófica sobre o sentimento da passagem do tempo. Sobre como a percepção disso e do que vale a pena viver muda com o próprio tempo. Com o taxista que me trouxe do samba. E onde mais eu estaria jogando filosofia fora, de madrugada com um estranho, senão aqui, na cidade cheia de espinhos?
A qualquer hora eles podem rasgar o véu e a carne e deixar ver quadros de um goya já louco...
Mas ontem não. Ontem eu estava com centenas de pessoas cantando os mesmos versos, fazendo os mesmos gestos, sorrindo os mesmos risos, debaixo da lua cheia. A cidade que se tinge tanto de vermelho estava azul violeta. Deixando a gente viver.
E deu até pra amar tudo de novo quando derramamos, em tantas vozes, já no fim da noite: ..."minha alma canta: vejo o Rio de Janeiro..."
A alma da gente teme, geme, treme. Mas é tão besta que não pára de cantar.






transmutações

A palavra dele ressoa no meu peito
como no corpo dum violão.
Como um som mântrico, hipnótico, catalisador,
cântico de monges tibetanos.
Me altera a consciência.
Vou transmutando tudo que toco.
As serpentes me seguiriam, encantadas,
as crianças
e os beija-flores.
 
Mas, como não tenho olhado para trás,
eu não ia nem perceber.
17 March

'as minhas irmãs

O que foi mesmo que te disseram? Esquece.
A vida inteira pode repousar, latente, no não-dito.
Esquece o que conheces,
esquece tudo aquilo que já não te pode trazer
a boa-nova que necessitas.
Escolhe um homem de olhos límpidos e alma pura
e vai viver amor de fêmea
que é o que toda mulher nasce pra ter
na vida.
 
Marca-te com os signos dele, que essa é a escrita
que há de te fazer reconhecível a teus próprios olhos
quando nada, nada mais te lembrar de quem eras
antes do clarão.
 
Vaga um pouco, se quiseres, que teus passos hão de pertencer a um caminho
traçado pelo aleatório dos teus sobressaltos...
e que importa?
Aprende a língua dele
que estarás no teu país.
13 March

MEUS CAROS AMIGOS

Abro o baú.
Quero um negativo, duma fotografia muito antiga... vou removendo a papelada... as letrinhas se sucedem: grandes, pequenas, desenhadas, desleixadas... como sempre, não resisto e paro pra ler.
Acabo por esquecer as fotografias.
 
Dentre todas as cartas que reli hoje, duas me fizeram chorar. (Falo de soluços, nariz fungando, aquela coisa bem pouco estética de quando a gente chora pra valer.) E por que? Eu sei?
 
Uma das cartas é de 1976. Diz que sou grande de espírito e que nada, nunca,  vai poder me derrubar. Que devo gostar mais de mim. Foi escrita por uma menina de quinze anos pra outra. A análise que ela faz de si e de mim, sua clareza, firmeza e sabedoria me espantam, porque poderiam ser datadas até mesmo de hoje. E o mistério do acerto das escolhas do coração, quanto a seus pares neste universo, me pára, me deixa tão encantada que é como se, pela primeira vez, eu visse o mar inteiro.
 
A outra é de 2000, de um homem que descobre ter passado a vida toda como um vampiro, se fazendo amar, e lesando-se a si mesmo, pois que pouco é ser amado sem amar. Diz que agora quer amar como vale a pena, com ar de ovelha, e não de lobo, e que eu (que sempre fui ovelha, ainda que defendida - como ele diz, divertido -  por colares de dentes de alho e crucifixos... rs ) deveria fazer o mesmo e  derramar meu sangue nas geleiras: "Faz o elogio de um homem, não com o amor que sente, pois não o sente, mas com o que queria sentir..."
 
Eu sei que ela conseguiu vencer seus desafios. Sei que ele agora ama e muito. Sinto orgulho deles, e de mim, por tê-los escolhido. Ou, por qualquer desígnio tê-los escolhido para serem meus, e por eu ter sido capaz de  reconhecê-los. Me enche de medo a possibilidade de ter passado por eles sem enxergá-los. Minha ciranda é pequena, mas as mãos que a tecem são mãos de iguais, em toda a sua diferença. Mãos fortes, longa corda me amarrando 'a terra firme quando dos naufrágios, ou me buscando de volta dos passeios nos céus.
 
 
 
12 March

quietude


Eu oscilo.

Prazerosamente, dolorosamente,

me balanço de cá pra lá, sem estabilidade possível.

Medo de alcançar estrelas.

De não chegar ao fundo.

Vontade de correr.

Não sei o que querer.

Passo as noites despertando no silêncio, chegada do sonho aos solavancos,

ninando, depois, o coração assustado.

Passo os dias adormecendo no meio dos sorrisos, derretendo as durezas.

Eu sou quem sou, eis tudo: posso mudar muita coisa,

mas tem sortilégios para os quais meu poder me abandona.

Estou sem poder. Vulnerável, mas não fraca. Quieta. Muito quieta.






8 March

conselhos e conselhos

Conselho de avó: nunca viaje com alguém que você não tenha beijado, pra saber se o beijo presta. Porque se não combinar, hummmm... nada vai, pode crer.
Se ele é chato mas o beijo é bom, é sempre um jeito de mantê-lo calado... mas se não, que fazer?
Inda mais se ele resolve fazer uma preleção sobre a-importância-de-você-ir-dizendo-tudo-que-acontece-contigo-tintim-por-tintim-para-a-obtenção-do-verdadeiro-prazer...
(??????????????????????????????????)
- Ah, mas eu não consigo fazer isso não.. eu desligo...
- Mas então você vai ter que repensar esse teu jeito.
- Olha não vai dar: ou bem eu narro o jogo ou bem eu faço gol. O que você prefere?
- Ah, mas assim não tem graça nenhuma, a gente não vai se entender (NOVIDADE!)
 
Isso é que dá seguir conselho de amiga: ah, mas ele é tão gatinho e tá tão afinzinho... (enquanto o corpo da gente fica mudo a respeito do sujeito e  a intuição grita que não vale a pena...)
Então, minhas netinhas não-nascidas: compatibilidade é tudo! E sexo quando é ruim é ruim sim! (Melhor evitar)
 
 
6 March

estradas

A gente estava indo pra visconde de mauá... já próximo de resende... o carro parou geral. F desceu pra ver o que era... e diagnosticou, nervoso:
- Que merda, acho que bateu pino! Só chamando o reboque...
- Ok, vamos esperar...
Eu ri da bolação dele, de repente me deu vontade de rir muito...
sentei na estrada, passei um filtro solar, peguei meu caderninho...
- Do que vc tá rindo, posso saber? E vai escrever o que, agora????
- É que você tá engraçado assim... o que não tem remédio... e vou escrever sobre o capim, olha que lindo...
- Tu é doida mesmo... fosse outra tava dando ataque aqui, e você rindo e escrevendo poema pro capim!
Aproveitou e  pegou carona no meu riso.
 
(Numa estrada eu tendo a ficar muuuuuuito feliz. Por tudo e por nada. E, fora perigos, nada me tira a paz,  ninguém captura os passarinhos que fazem revoada no meu peito só de ver uma rodagem na minha frente...
(definitivamente, se na próxima encarnação inda existir caminhão e eu tiver um pouco mais de coragem, vou ser caminhoneira...))





SÍMBOLOS

Agora toda vez que recebo um carregamento de cartuchos da HP, bato o olho no logotipo e sorrio...
Lembro de Esparta e Atenas.
De koalas australianos e capacetes.
Os desdobramentos dos signos só não são mais loucos que os da vida.
Toalha de linho imensa, que a gente vai esticando e descobrindo, com surpresa, a beleza
do desenho completo.
No fim, a vida é alinhavada em signos, uns trazendo outros, e outros, e outros,
tornando significante o que era espaço vazio,
as pedrinhas dos significados
fazendo calidoscópios onde a gente não esperava ver nada.






 
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